“Empresários trocam sala de aula por imersão em polos de tecnologia no exterior”

Este foi o título de uma matéria na folha de São Paulo do último dia 21/04/2019.

Existem três aspectos nestas viagens, ou como gostam de chamar, “missões”, que acho pouco efetivos para quem deseja aprender ou se aprofundar em algo e fazer benchmarking que se traduzam em insights.

A primeira coisa são as visitas rasas. Para ilustrar isso, empresto a fala da Ana Fontes, em publicação no LinkedIn sobre “Coisas que NÃO vão deixar você ou sua empresa mais inovadores”. Logo o primeiro item trata de visitas às empresas no Vale do Silício, ela diz o seguinte: “Viajar para conhecer o vale do silício e tirar fotos nas empresas inovadoras”.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

“Some fly across the world. Some sit for hours in traffic. But all tourists flocking to Silicon Valley face a harsh truth—they’ll only get to see a corporate logo for a selfie.

Blake Montgomery – 03.05.19 – 10:12 PM

Infelizmentemuitas dessas “missões” podem ser consideradas mero turismo.

O segundo aspecto é fazer reuniões com brasileiros que lá residem. Nada contra, mas a essência da cultura de inovação, do jeito de fazer negócios, da visão de mundo, etc, é muito deles. Se a ideia é ter uma visão diferente, qual o sentido de ver e ouvir mais do mesmo. O argumento de quem promove isso é que o americano não conhece nossa realidade trabalhista e tributária, ainda bem. Por que colocar amarras e limitadores? Vejam o caso da Uber, a legislação mudou em várias partes do mundo para se adaptar à nova ordem. Ainda nesta linha, qual a razão para ir em uma “missão” como essa para falar com empresários brasileiros por conhecerem a realidade do Brasil? É como se as pessoas que embarcaram nessa, não conhecessem e precisassem de explicações sobre como as coisas acontecem por aqui.

O terceiro ponto é a falta de estruturação de um programa educacional com uma Universidade. No entanto, muitas das empresas que organizam esses passeios, insistem em chamar workshops e palestras, muitas vezes proferidas por brasileiros, de programa educacional.

Parte do problema é a falta de contratos de parceria com estas Universidades. Não é Trivial fechar um contrato de parceria com uma Universidade de ponta, é mais fácil fazer turismo.

Um bom conteúdo preparado por uma universidade reconhecida faz toda a diferença, além do conteúdo denso, terá a oportunidade de discutir com professores altamente qualificados e oriundos de grandes companhias americanas e, receber uma certificação internacional. Tudo isso confere grande valor ao projeto.

Parte dos leitores pode pensar que a academia está distante do mercado, verdade, porém, isso ocorre no Brasil. Na Califórnia, de onde tenho dados e onde está localizado o Vale do Silício, apenas as 10 universidades da Califórnia (San Diego, Berkeley, Irvine, Los Angeles, Santa Cruz,…) tem mais de 12.200 patentes ativas e geram 5 inovações todos os dias.

“E o volume de novas companhias não é pequeno, a UC San Diego e a UCLA lideram o sistema público das UC´s – Universidades da califórnia, em comercialização de invenções. O Relatório de Comercialização de Tecnologia das Universidades da Califórnia, observou que as inovações no sistema UC, que tem 10 campi, tiveram um excepcional ano, lançando 96 startups comerciais no ano fiscal de 2017, foram cerca de oito novas empresas por mês. A UC San Diego e a UCLA produziram 20 novas empresas cada uma, disse o Escritório do Presidente do sistema das UC´s.

Essas inovações ajudaram a criar cerca de 29.200 empregos e geraram US $ 32,4 bilhões em impacto econômico, apenas na região de San Diego, com base nas vendas anuais estimadas de empresas relacionadas à UC San Diego.”

É muito diferente do que ocorre no Brasil. Isso precisa ser aprendido, copiado e adaptado a nossa realidade, isso é gerar riqueza. Isso vale a pena investir.

Concluindo, prescindir de um programação acadêmica em uma universidade de ponta, atrelada a palestras e visitas às empresas com o objetivo de fazer benchmarking e conexão com a teoria, faz com que este tipo missão deixe uma grande lacuna frente ao investimento.

“A YouTube engineer, who asked to remain anonymous for fear of professional reprisal, summed it up: “It’s very strange. I’m not sure what people get out of it. The only maybe interesting things to see are all behind closed doors, but even then it’s just an office.””

fonte: https://www.thedailybeast.com/visiting-facebook-google-and-apple-inside-the-absurd-new-rush-of-silicon-valley-tourism?ref=scroll

As empresas que promovem estes passeios estão vendendo um produto válido, qualquer um pode se interessar e comprar, só é preciso saber se é exatamente isso que deseja.

Depois de muito anos atuando com educação executiva, vi muito dinheiro e tempo desperdiçados em projetos deste tipo. Certamente, algo fica, mas poderia ser muito melhor para o indivíduo e para a empresa que investiu.

O ponto positivo com certeza é o networking. A troca com profissionais de varias setores, formações diferentes e muitas vezes com desafios muitos parecidos, pode ser extraordinário em varias aspectos. Apesar disso também poder ocorrer por aqui, estar em um grupo em outro país, ajuda a estreitar os laços.

Vale a pena se perguntar, o que você quer trazer na “bagagem” ao retornar de um projeto como esse? Como isso pode influenciar na minha vida e na minha empresa?

Alexandre Chiacchio

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *